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Há coisas que (agora) só acontecem com o São Paulo

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2027-02-20T16:21:28

27/02/2016 21h28

Há coisas que só acontecem com o Botafogo, mas também acontecem com o Palmeiras, o Corinthians, o Cruzeiro, o Atlético… Por mais que o texto de Paulo Mendes Campos (leia a íntegra abaixo) tenha tornado uma de suas frases uma espécie de carma botafoguense, há momentos em que parece haver uma praga sobre o seu time. E só sobre o seu time.

O que acontece com o São Paulo, hoje, não é exatamente assim, mas também estamos longe dos tempos em que a bola entrava e dava a vitória ao tricolor no último minuto. Está longe de ser uma grande moleza torcer para o São Paulo, como Milton Neves dizia na rádio Jovem Pan no início dos anos 90.

A Ponte Preta venceu o São Paulo por 1 x 0, com gol de Reinaldo, eleito o pior lateral-esquerdo da história tricolor por uma série de torcedores exagerados. Reinaldo não é lá essas coisas e… marcou o gol da derrota são-paulina.

Então veja como hoje há coisas que acontecem com o São Paulo e antes só aconteciam com outros clubes.

Os conselheiros vazam notícias sobre crises internas na vida política.

O time depende de uma reunião do Conselho Deliberativo para ter o dinheiro necessário para pagar o direito de imagem atrasado.

A torcida uniformizada vaia sistematicamente um jogador, mas a torcida comum, na arquibancada e numerada, resolve aplaudi-lo.

Perde em casa para um time improvável, da Bolívia, que não vencia uma partida com o visitante havia 35 anos.

Um ex-jogador do clube, que saiu execrado, condenado como um dos piores de todos os tempos, marca o gol da vitória do adversário por 1 x 0.

Nos bons momentos, tudo isso parecia acontecer no Botafogo, no Palmeiras, no Corinthians, no Atlético… No São Paulo, não.

Hoje anda acontecendo. O trabalho deste momento é impedir que continue se repetindo.

Abaixo, o texto de Paulo Mendes Campos, onde está a frase famosa: "Há coisas que só acontecem ao Botafogo."

A frase exata também foi editada, para parecer que o Botafogo estava condenado pelo destino. Não está. Nem o São Paulo.

O BOTAFOGO E EU (Paulo Mendes Campos)

Que partilhamos defeitos e qualidades comuns, não há dúvida. Nos meus torneios, quando mais preciso manter os números do placar, bobeio num lance, faço gol contra, comprometo, tal qual o Botafogo, numa difícil campanha.

A mim e a ele soem acontecer sumidouros de depressão, dos quais irrompemos eventualmente para a euforia de uma tarde luminosa. Sou preto e branco também, quero dizer, me destorço para pinçar nas pontas do mesmo compasso os dualismos do mundo, não aceito o maniqueísmo do bem e do mal, antes me obstino em admitir que no branco existe o preto e no preto, o branco.

Sou um menino de rua perdido na dramaticidade existencial da poesia; pois o Botafogo é um menino de rua perdido na poética dramaticidade do futebol. Há coisas que só acontecem ao Botafogo e a mim. Também a minha cidadela pode ruir ante um chute ridículo do pé direito do Escurinho.

O Botafogo tem uma sede, mas esqueceu a vida social; também eu só abro os meus salões e os meus jardins à noite silenciosa. O Botafogo é de futebol e regatas; também eu sou de bola e de penosas travessias aquáticas. O Botafogo é um clube com temperamento amadorístico, mas forçado, a fim de não ser engolido pelas feras, a profissionalizar-se ao máximo; também sou cem por cento um coração amador, compelido a viver a troco de soldo.

Reagimos ambos quando menos se espera; forra-nos, sem dúvida, um estofo neurótico. Se a vida fosse lógica, o Botafogo deixaria de levar o futebol a sério, fechando suas portas; eu, se a vida fosse lógica, deixaria de levar o mundo a sério, fechando os meus olhos.

O Botafogo é capaz de quebrar lanças por um companheiro injustiçado pela Federação; eu aguardo a azagaia de uma justiça geral. O Botafogo pratica em geral o 4-3-3; como eu, que me distribuo assim em campo: no arco, as mãos, feitas para proteger minha porta; na parede defensiva, meus braços, meu peito aberto, meus joelhos e meus pés; no miolo apoiador, trabalho com os pulmões e o fígado; vou à ofensiva com a cabeça, a loucura e o coração. Falta um, Zagalo. Em mim, essa energia sem colocação definida é a alma, indo e vindo, indistinta, atônita, sarrafeada, desmilingüindo-se até o minuto final.

O Botafogo é capaz de cometer uma injustiça brutal a um filho seu, e rasgar as vestes com as unhas do remorso; como eu.

O Botafogo põe gravata e vai à macumba cuidar de seu destino; eu meto o calção de banho e vou à praia discutir com Deus. O Botafogo não se dá bem com os limites do sistema tático; tem que ser como eu, dramaticamente inventado na hora.

Miguel Ângelo é botafogo, Leonardo é flamengo, Rafael é fluminense; Stendhal é botafogo, Balzac é flamengo, Flaubert é fluminense; Bach é botafogo, Beethoven é flamengo, Mozart é fluminense. Sem desfazer dos outros, é com eles que eu fico, Miguel, Henrique, João Sebastião.

Dostoiévski é Botafogo, Tolstói é flamengo (na literatura russa não há fluminense); Baudelaire é fluminense, Verlaine é flamengo, Rimbaud é Botafogo; Camões não é vasco, é flamengo, Garrett é fluminense, Fernando Pessoa é Botafogo. Sim, Machado de Assis é fluminense, mas no fundo, no fundo, debaixo da capa cética, Machado, um bairrista, morava onde? Laranjeiras!

O Botafogo é paixão, é Brasil, é confusão;  Paulo Mendes Campos é paixão, Brasil, confusão.
O Botafogo conquistou um campeonato esmagando inesperadamente o Fluminense de 6 x 2; uma vez, enfrentei um dragão enorme e entrei no castelo encantado.

O Botafogo, às vezes, se maltrata, como eu; o Botafogo é meio boêmio, como eu; o Botafogo sem Garrincha seria menos Botafogo, como eu; o Botafogo tem um pé em Minas Gerais, como eu; o Botafogo tem um possesso, como eu; o Botafogo é mais surpreendente do que conseqüente, como eu; ultimamente, o Botafogo anda cheio de cobras e lagartos, como eu.

O Botafogo é mais abstrato do que concreto; tem folhas-secas; alterna o fervor com a indolência; às vezes, estranhamente, sai de uma derrota feia mais orgulhoso e mais Botafogo do que se houvesse vencido; tudo isso, eu também.

Enfim, senhoras e senhores, o Botafogo é um tanto tantã (que nem eu). E a insígnia de meu coração é também (literatura) uma estrela solitária.

Sobre o Autor

Paulo Vinicius Coelho é colunista da Folha de S. Paulo, comentarista da Fox e blogueiro do UOL. Jornalista desde os 18 anos, descobriu ao completar 36 que já tinha mais tempo de jornalismo do que de sonho. Ou seja, mais anos no exercício da profissão do que tinha de idade quando publicou sua primeira matéria. Trabalhou na revista Placar, diário Lance!, ESPN Brasil, cobriu as Copas de 1994, 1998, 2006, 2010 e 2014, esteve em sete finais de Champions League.

Sobre o Blog

O blog tem por objetivo analisar o futebol brasileiro e internacional em todos os seus aspectos (técnico, tático, político e econômico), sempre na tentativa de oferecer uma visão moderna e notícias em primeira mão.

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