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Mbappé na capa da Time é metáfora França-Brasil

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Mbappé é capa da última edição da revista norte-americana Time, com o título ''Next Generation Leader.'' O líder da nova geração de craques do planeta é o retrato da reviravolta do futebol francês e símbolo da França miscigenada, hoje conduzida pelo presidente Emmanuel Macron. Quem já desceu no aeroporto Charles de Gaulle e viajou ao centro de Paris de trem, em vez de táxis confortáveis, viu cenas como as do filme ''Entre les Murs'' (Entre os Muros da Escola). Em 2008, as salas de aula reveladas na película incluíam o ensino precário, o preconceito e as questões étnicas entre negros e brancos, cristãos e muçulmanos e dos diversos grupos de descendentes de imigrantes do Marrocos, Argélia, Senegal, Tunísia…

Kilyan Mbappé nasceu nesse círculo, em Bondy, periferia norte de uma Cidade Luz que assustava, mais do que iluminava, a Europa de dez anos atrás. Em 2009, jovens manifestantes queimaram mais de 300 carros e veículos de transporte público em confrontos com a polícia parisiense. Vice-campeã mundial na época, a França classificou-se para a Copa do Mundo da África graças a um toque no braço de Thierry Henry, gol ilegal de Gallas contra a Irlanda.

No ano seguinte, viveu seu maior vexame em Mundiais, ao ser eliminada na fase de grupos por Uruguai e México, lanterna numa chave que também tinha a África do Sul.

Na mesma Copa de 2010 veio vergonha maior, com a briga pública entre o centroavante Anelka e o técnico Raymond Domenech. O conflito estampou a primeira página do jornal L'Equipe, com o título: ''Va te faire enculer, sale fils de pute!'' O ódio dispensa tradução.

O país que fez a revolução por liberdade, igualdade e fraternidade sempre terá mais condição de superar crises de identidade e recolocar-se nos trilhos, se é que esteve perto de sair deles. Emmanuel Macron atribuiu a derrota do Partido Socialista, nas eleições de 2002, à falta de capacidade para lidar com os problemas de segurança. Em 2017, a extrema-direita de Marine Le Pen foi para o segundo turno das eleições presidenciais com 21% dos votos — teve um terço ao final do pleito.

No ápice dos conflitos em Paris, o lado de cá do oceano concluía o governo Lula e assistia ao início da carreira de Neymar. Mbappé era um adolescente de 15 anos, em Bondy, quando Neymar estampou a capa da revista Time, em 2013, sob o título ''O próximo Pelé.''

Tanto Mbappé quanto Neymar têm chance de ganhar a Bola de Ouro da France Football, em dezembro, mas o brasileiro não figurou nem entre os dez melhores do The Best, da Fifa, e Mbappé foi campeão mundial aos 19 anos, pela França miscigenada. Com esta idade, tem 67 gols. Na mesma faixa etária, Messi havia marcado apenas 20, contabiliza o diário italiano La Gazzetta dello Sport.

Há uma semana, o Paris Saint-Germain venceu o Lyon por 5 x 0, com atuações de gala tanto do francês, quanto do brasileiro. Mbappé marcou quatro vezes, Neymar uma.

Neymar é um pop star, fala sobre amor e casamento, exibe seus parças e o filho em redes sociais.

Mbappé queixa-se sobre os boatos a respeito de sua vida pessoal.

Bom senso exige aceitar as divergências. Inclusive estas. Talvez tenha sido o grande fator para a França diminuir seus conflitos e tornar-se o país do futebol.

Fazer previsões é sempre perigoso. A revista Time evita dizer o que será de Mbappé, como fez com Neymar. Conjuga o verbo no presente: Mbappé é o líder da nova geração.

Melhor assim quando há tantas nuvens no futuro.