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Futebol real x virtual amplifica pressão com populismo e redes sociais

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2013-04-20T19:06:07

13/04/2019 06h07

Um dos perfis do twitter que pregam a demissão de Abel Braga, do Flamengo, amanheceu a sexta-feira, depois da goleada de 6 x 1 sobre San José, festejando ter quatro mil assinaturas. Havia 64 mil torcedores no Maracanã na noite de quinta-feira. A média de espectadores rubro-negra é de 40 mil no estadual e de 62 mil presentes na Libertadores.

Quatro mil assinaturas é realmente muita coisa, mas não é o retrato da maior torcida do país. Na quinta à noite, houve vaias no final do primeiro tempo, aplausos em parte do jogo, nenhum grito de Fora, Abel no estádio. Sem ser impecável, o Flamengo registrou sua terceira maior goleada na história da competição continental.

Quatro mil assinaturas representam 6% do público presente ao Maracanã. O Flamengo tem 32 milhões de torcedores.
Há movimentos em redes sociais em todos os clubes. Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Vasco parecem ter os twitteiros mais indignados atualmente. Talvez a boa fase dos últimos anos do Corinthians diminua a ira corintiana.

A febre e a indignação das outras quatro torcidas nas redes sociais só não impressiona mais do que o fato de sites e emissoras de TV registrarem as mensagens como se fossem o espelho da realidade. São apenas um extrato.

As hashtags Fora Abel, Fora Alberto Valentim, Fora Leco aparecem todos os dias em programas televisivos e contrastam, em boa parte, com o que se vê na vida real, dentro dos estádios. Todos esses movimentos existem. Medir suas relevâncias é que se tornou difícil para quem vive só no mundo virtual.

Sábado passado, fui ao Fla-Flu. Sabia que o Maracanã não grita mais o nome dos jogadores do Flamengo – a exceção é Cuellar — e que as duas uniformizadas mais tradicionais, Jovem e Raça, estão suspensas. Sabia da resistência de parte da arquibancada a Abel Braga. Diferente do que se diz, a multidão gritou os nomes de Cuellar e Diego, não apenas do volante colombiano. Cantou o hino e entoou o tradicional "Oh, meu Mengão, eu gosto de você" durante todo o jogo, inclusive após o gol de Gilberto, do Fluminense.

Ao chegar em casa, o twitter tinha uma mensagem direta para mim: "A maior torcida do Brasil vaiou o Abel hoje, quando ele tirou o Diego. Exigiu Arrascaeta o tempo inteiro com músicas… na coletiva, ele (Abel) afrontou a todos dizendo que comanda de dentro para fora. Insustentável!"

Respondi com uma pergunta: "Eu estava no estádio e não percebi. Você também estava no estádio?"
Veio a réplica: "Como não percebeu? Aaa eee… solta o Arrascaeta nessa porra! Música clássica de estádio da nossa torcida. Cantaram pro Guerrero quando foi suspenso. Substituição do Diego foi vaiada quase em uníssono."
Calmamente, devolvi: "Percebi a vaia à saída do Diego e percebi aplauso ao Diego e Cuellar no anúncio da escalação. Você estava no estádio?"

A tréplica chegou: "Hoje, não. Estou fora do país. Mas passei a vida na Raça Rubro-Negra desde os 5 anos de idade e fui em todas as Libertadores no século 21."

O Brasil está doente. O futebol é o dedo mindinho dessa doença e também padece. O problema é quando quem pode olhar para o todo escolhe observar só a unha do dedinho. Só a rede social. Às vezes, parecemos gritar o que o povo quer ouvir. Ou melhor, o que a rede social quer ler. Há populismo e panfletos repetidos exaustivamente, mentiras que contadas dez vezes parecem verdade.

No domingo (7), o Uol publicou: "Feliz e Bravo: Flamenguistas exaltam final, mas se irritam com Abel e VAR." A matéria colecionava mensagens no twitter. Havia contas que variavam de três seguidores até dez mil do perfil #ForaAbel. Na "reportagem", não havia nenhum depoimento de algum jornalista que relatasse o que viu no estádio. Todos os relatos eram leitura do mundo virtual.

A lembrança parece obsessiva, mas é justa: o Flamengo tem 32 milhões de torcedores!
Dirigentes sem preparo se baseiam pelo que leem e julgam que a pressão se dá na vida virtual. Os exemplos aqui citados de rubro-negros valem twitteiros de outros clubes.

O mundo mudou e é óbvio que as redes sociais têm importância. É excelente que a vida democrática dê chance de manifestação a quem nunca teve. Mas isso precisa vir acompanhado de responsabilidade. De filtro. Quem pode filtrar é quem separa as mensagens inteligentes das burras, os protestos legítimos dos interesseiros, as manifestações democráticas das autoritárias.
Ninguém está separando.

O Flamengo venceu o San José por 6 x 1 na quinta-feira, sua terceira maior goleada na história da Libertadores. Teve defeitos táticos, analisados por todos os comentaristas. Falhou Rodrigo Caio, Léo Duarte não fez bom jogo, William Arão não engrena, os atacantes perderam gols demais. O time não joga bem, mas foi derrotado só em dois de seus dezenove jogos no ano. Marcou 39 gols. Só o Grêmio fez mais, entre os doze maiores clubes do país.

No dia seguinte, o orgulho na rede social era ter 4 mil seguindo o #ForaAbel. Abel Braga não é nem nunca foi o melhor técnico do Brasil. De todos os treinadores de grandes times brasileiros, é quem frequenta esse círculo restrito há mais tempo. Desde 1985, quando assumiu o Botafogo.

Nas redes sociais, às vezes recebe tratamento de estagiário, palavra com que se convencionou ofender Maurício Barbiéri, sete meses atrás, porque dirigia o rubro-negro sem jamais ter trabalhado em clube grande antes.

Dos sete representantes brasileiros na Libertadores, só o Cruzeiro está invicto e 100%.
Só dois, Santos (1963) e Corinthians (2012) ganharam o torneio sem sofrer nenhuma derrota. O campeão sempre tropeça.

Em 1981, ano do único troféu do Flamengo, em quinze participações, o rubro-negro tinha Zico, Júnior, Adílio, Andrade e Leandro e, mesmo assim, empatou contra o Olimpia, dentro do Maracanã, na fase de grupos. Mereceu manchete crítica do Jornal dos Sports: "Fla joga um ponto fora: 1 a 1 com Olimpia." No dia seguinte, a primeira página tinha outra visão: "Fla desconfia da correria na Taça: vai pedir antidoping."

O Flamengo empatou com o Olimpia no Maracanã e ninguém disse que o time brasileiro não corria. Eram os paraguaios que corriam demais.

Hoje, a cada jogada perigosa do adversário, uma mensagem de 280 caracteres aparece na internet.
Há um meio caminho entre desconfiar da honestidade do adversário e não aceitar um tropeço, como o melhor Flamengo da história teve, dentro de casa, contra um adversário paraguaio. Quatro meses daquela atuação ruim, foi campeão mundial.

Sobre o Autor

Paulo Vinicius Coelho é colunista da Folha de S. Paulo, comentarista da Fox e blogueiro do UOL. Jornalista desde os 18 anos, descobriu ao completar 36 que já tinha mais tempo de jornalismo do que de sonho. Ou seja, mais anos no exercício da profissão do que tinha de idade quando publicou sua primeira matéria. Trabalhou na revista Placar, diário Lance!, ESPN Brasil, cobriu as Copas de 1994, 1998, 2006, 2010 e 2014, esteve em sete finais de Champions League.

Sobre o Blog

O blog tem por objetivo analisar o futebol brasileiro e internacional em todos os seus aspectos (técnico, tático, político e econômico), sempre na tentativa de oferecer uma visão moderna e notícias em primeira mão.

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