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O futebol no meio do caos

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25/08/2019 10h53

Texto originalmente publicado na edição deste domingo, da Folha de S. Paulo

A ameaça à arrancada do São Paulo, com cinco vitórias seguidas e dois pontos a menos do que o líder Santos, tem nome e sobrenome: Talles Magno. Menino do Vasco, é retrato do Rio de Janeiro, cidade que virou manchete nesta semana, outra vez por razões alheias à sua vocação natural à festa e à alegria.

Talles nasceu num condomínio em Jacarepaguá, na zona oeste. Aos 9 anos, foi selecionado numa peneira do Vasco e convidado para participar de uma excursão a Portugal. Não tinha dinheiro. Sua mãe fez uma rifa de uma camisa do Vasco, para arrecadar parte do valor. Deixou de pagar a conta de luz e o pai conseguiu empréstimo com seu patrão. Talles viajou, jogou e nunca mais saiu do caminho para ser craque.

Seu sonho é o mesmo relatado pelo sequestrador do ônibus da ponte Rio-Niterói, William Augusto da Silva. Durante as quatro horas em que manteve 37 passageiros como reféns no ônibus da linha 2520, William repetia que só queria entrar para a história.

Na manhã de terça-feira (20), data do seqüestro, o técnico português Jorge Jesus chegou ao Ninho do Urubu com perguntas sobre a geografia do Rio de Janeiro. Queria saber a extensão da ponte Rio-Niterói. São 13.290 metros. Do início da travessia sobre a Baía da Guanabara até o Centro de Treinamento do Flamengo, no bairro carioca de Vargem Grande, são 68 km.

Provavelmente sem entender a distância, o jornalista português Rui Santos escreveu que Jorge Jesus pensou em rescindir seu contato com o Flamengo em dezembro, por causa da violência do Rio. O treinador português disse que não pode comentar nada sobre o que não afirmou.

Sua família está em Portugal e, como o jornalista, certamente teve acesso ao noticiário. O relato é de que os familiares adoraram o Rio de Janeiro, nos dias que passaram na Barra da Tijuca.

Se o Brasil inteiro se assustou com mais um caso de violência, imagine a família, em Portugal.

Além de Jorge Jesus, o Ninho do Urubu tem outro habitante recente. O menino Ronald, de 17 anos, eleito destaque do Torneio de Favelas e contratado pelo observador Waltinho, ex-jogador rubro-negro e filho de Silva, o Batuta, craque de Flamengo e Vasco na década de 1960.

Ronald ganhou o Torneio de Favelas pelo time do Gogó da Ema, comunidade de Belford Roxo, onde nasceu o cantor Seu Jorge. O Gogó da Ema é uma das razões de o campeonato amador, chamado "Brasileirão da Baixada", ser disputado em turno e returno em campo neutro. No início de sua história, era ida e volta, cada um em seu campo. O medo de entrar em algumas comunidades obriga disputas nos campos neutros de Mesquita e Xerém.

Toda semana, há de 400 a 800 espectadores. O site da Associação dos Clubes de Futebol de Belford Roxo tem links para as páginas oficiais de CBF e Federação do Estado do Rio. Nem a FFERJ nem o diretor da base da CBF, o ex-lateral Branco, conhecem o torneio.

O site da associação de Belford Roxo apresenta um calendário com sete competições, uma sub-17. Além do Brasileirão da Baixada Fluminense, outro torneio amador da região é a Champions League de Duque de Caxias. "Trabalho na base há doze anos e não conheço esses torneios", diz Waltinho.

Depois de contratar Ronald, do Gogó da Ema, Waltinho lapida jogadores na Taça das Favelas de São Gonçalo, cidade onde vivia o sequestrador William Augusto da Silva.

"A gente está aqui hoje para ser espelho para alguém lá da nossa favela, porque toda vez que sai na televisão, só sai morte e amigo da gente sendo preso. Mas hoje, a gente fez história."

A declaração é do menino Ronald, ao ser eleito craque da Taça das Favelas, em julho.

Neste domingo (25), Talles Magno é esperança de sua torcida e de sua família. Sua mãe não tinha uma arma, nem de brinquedo. Tinha uma camisa do Vasco, para vender numa rifa.

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

Paulo Vinicius Coelho é colunista da Folha de S. Paulo, comentarista da Fox e blogueiro do UOL. Jornalista desde os 18 anos, descobriu ao completar 36 que já tinha mais tempo de jornalismo do que de sonho. Ou seja, mais anos no exercício da profissão do que tinha de idade quando publicou sua primeira matéria. Trabalhou na revista Placar, diário Lance!, ESPN Brasil, cobriu as Copas de 1994, 1998, 2006, 2010 e 2014, esteve em sete finais de Champions League.

Sobre o Blog

O blog tem por objetivo analisar o futebol brasileiro e internacional em todos os seus aspectos (técnico, tático, político e econômico), sempre na tentativa de oferecer uma visão moderna e notícias em primeira mão.

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